O Cavernoma Medular, também conhecido como angioma cavernoso espinhal, é uma malformação vascular rara e benigna, porém com potencial de causar sérios danos neurológicos. Diferente das malformações arteriovenosas (MAVs) de alto fluxo, o cavernoma é uma lesão de baixo fluxo sanguíneo, composta por aglomerados de capilares dilatados e de paredes finas, sem tecido nervoso funcional entre eles, assemelhando-se visualmente a uma “amora”. Embora representem apenas cerca de 5% a 12% de todas as malformações vasculares espinhais, sua localização dentro da medula espinhal (intramedular) torna qualquer pequeno sangramento ou crescimento um evento crítico, dado o espaço restrito do canal vertebral.
Clinicamente, a apresentação do cavernoma medular costuma seguir dois padrões principais: episódios agudos de hemorragia ou um declínio neurológico lento e progressivo. Quando ocorre um sangramento (hematomielia), o paciente pode apresentar um início súbito de dor nas costas severa, seguida rapidamente por déficits motores e sensitivos. No entanto, é mais comum que ocorram micro-hemorragias repetitivas, que depositam hemossiderina (resíduo de sangue) no tecido medular vizinho. Essa substância é tóxica para os neurônios e gera uma reação inflamatória, levando a sintomas progressivos de mielopatia, como fraqueza nas pernas (paraparesia), dormência, alterações de sensibilidade e disfunção urinária ou intestinal.
O diagnóstico de precisão é realizado exclusivamente através da Ressonância Magnética (RM), uma vez que o cavernoma é “angiograficamente oculto” (não aparece na angiografia tradicional por ter baixo fluxo sanguíneo). Na RM, a lesão apresenta uma aparência clássica descrita como “pipoca” (popcorn), com um núcleo de sinal misto cercado por um anel de hipossinal (escuro), que representa os depósitos de hemossiderina de sangramentos antigos. A identificação correta é crucial para diferenciá-lo de tumores intramedulares, pois as estratégias cirúrgicas são completamente distintas.
O tratamento do cavernoma medular é uma das decisões mais delicadas na neurocirurgia. Para pacientes assintomáticos descobertos incidentalmente, a conduta conservadora com monitoramento radiológico é frequentemente adotada. No entanto, para lesões sintomáticas ou que já sangraram, a microcirurgia para ressecção é o padrão-ouro, visando remover a lesão totalmente para prevenir o declínio neurológico catastrófico. A cirurgia é tecnicamente desafiadora e deve ser realizada sob monitorização neurofisiológica intraoperatória para preservar a função motora e sensitiva, aproveitando a interface natural (plano de clivagem) que geralmente existe entre o cavernoma e o tecido medular saudável.