• Formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
  • Residência de Neurocirurgia na Santa Casa de Belo Horizonte.
  • Fellow em Radiocirurgia e Neurocirurgia Funcional pela Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) EUA.
  • Neurocirurgião do Corpo clínico do Hospital Sirio Libanês e Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo
  • Autor do Neurosurgery Blog
  • Autor de 4 livros
  • Colaborador na criação de 11 aplicativos médicos.
  • Editor do Canal do YouTube NeurocirurgiaBR
  • Diretor de Tecnologia de Informação da Associação Paulista de Medicina (APM) 
  • Delegado da Associação Médica Brasileira (AMB)

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DOENÇAS VASCULARES CEREBRAIS ( MAV, CAVERNOMA E OUTRAS) – A Jornada da Classificação das Lesões Vasculares: Da Morfologia à Genética. Dr. Julio Pereira – Neurocirurgião São Paulo – Neurocirurgião Hospital Sírio-Libanês

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A história da classificação das lesões vasculares cerebrais remonta ao século XIX, em uma época dependente exclusivamente de achados de autópsia. Patologistas pioneiros, como Rudolf Virchow e Hubert von Luschka, foram os primeiros a descrever anomalias vasculares, mas sem uma distinção clara entre neoplasias e malformações. Durante décadas, termos como “angiomas” eram usados de forma genérica, misturando conceitos. A grande revolução inicial ocorreu em 1927, com a introdução da angiografia cerebral pelo português Egas Moniz. Pela primeira vez, foi possível visualizar a arquitetura dos vasos in vivo, permitindo aos médicos começar a separar as lesões que tinham fluxo sanguíneo rápido (como as malformações arteriovenosas) daquelas ocultas à angiografia (como os cavernomas).

O alicerce da classificação moderna foi consolidado em 1966 pelo neuropatologista W.F. McCormick, que propôs um esquema baseado na estrutura da parede do vaso e na presença ou ausência de parênquima cerebral entre eles. McCormick dividiu as lesões em quatro grupos principais que permanecem vigentes até hoje: Malformações Arteriovenosas (MAVs), caracterizadas por shunts diretos e ausência de leito capilar; Angiomas Cavernosos (Cavernomas), aglomerados de vasos sinusoidais sem parênquima interposto; Anomalias do Desenvolvimento Venoso (ADVs), formadas por veias medulares dilatadas; e Telangiectasias Capilares. Essa organização permitiu separar as lesões de alto risco hemorrágico daquelas que são frequentemente achados incidentais benignos.

Com o advento da microcirurgia na década de 1970 e 1980, a necessidade de classificação mudou de puramente diagnóstica para prognóstica. Foi nesse contexto que surgiu, em 1986, a célebre Escala de Spetzler-Martin para MAVs. Diferente das classificações patológicas de McCormick, este sistema focava no risco cirúrgico, pontuando as lesões de 1 a 5 com base em três variáveis cruciais: tamanho, elocuência da área cerebral adjacente e padrão de drenagem venosa. Essa escala tornou-se a “língua franca” da neurocirurgia vascular, padronizando a decisão entre operar, embolizar, irradiar ou observar, e influenciou sistemas posteriores para outras patologias, como as escalas para cavernomas de tronco cerebral.

No cenário contemporâneo, estamos migrando para uma classificação biológica e genética, alinhada com os conceitos da ISSVA (International Society for the Study of Vascular Anomalies). Hoje, sabemos que o comportamento de uma lesão não depende apenas de sua anatomia, mas de sua biologia molecular. A descoberta de mutações nos genes CCM1, CCM2 e CCM3 para cavernomas ou a associação de MAVs com síndromes genéticas (como HHT) está redefinindo as categorias. A classificação atual é multimodal: ela integra a imagem de alta resolução, a hemodinâmica do fluxo e o perfil genético para guiar uma medicina de precisão, onde o tratamento é desenhado não apenas pelo formato da lesão, mas pelo seu potencial biológico de sangramento.